"And now for something completely different..."

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Um Conto de Ano-Novo

 O rapaz caminhava pela cobertura de um edifício pequeno. A lua iluminava seus passos, e a silhueta de seu sobretudo e boina era quase imperceptível em meio à fumaça que era liberada dos diversos exaustores ao redor. Fez seu percurso até o parapeito do prédio, sem pressa alguma, como que admirando as estrelas e os sabores inebriantes da noite urbana.

 Chegando ao parapeito, debruçou-se sobre ele, observando o movimento inexistente nas ruas enevoadas abaixo. Nenhum carro, nenhuma pessoa. Uma lata de lixo se movia por dentro, com um gato de rua que procurava por sua comida. O jovem achava aquilo curiosamente belo – a cidade dormia. Enquanto as pessoas estavam deitadas tranquilamente em suas camas, lá estava ele, sobre suas cabeças. Por isso, sentia como se pudesse fazer qualquer coisa.

- Você não pode fazer o que quiser, espero que saiba disso. – disse uma voz atrás dele, como se tivesse acabado de ler a introdução acima. O jovem estalou os lábios e nem se deu ao trabalho de virar a cabeça ou cumprimentar a garota que se aproximava.

 A garota também usava boina e sobretudo, porém de cores mais claras. Sua bota, de cano alto, fazia um leve ressoar no cimento conforme se aproximava. Mas não se aproximou muito.

- Ainda está nervoso comigo?

- “Ainda está nervoso comigo?” – caçoou o rapaz, em um tom infantil.

- Isso não é muito maturo da sua parte. – ele realmente não se importava. – As pessoas nem sempre vão fazer o que você quer. – ele não queria que as pessoas fizessem nada. – Às vezes acontecem coisas que não gostaríamos. – e isso era frequente. Mas ele preferiu ficar em silêncio.

- Sabe... – continuou a garota. – Você não deveria guardar rancor dessa forma. Esta é a última madrugada do ano. A esta hora, amanhã, será o primeiro dia de um novo ano. Não que isso faça diferença para as estrelas lá em cima, mas como humanos, podemos e devemos nos apegar a qualquer chance que temos de reciclar nossas emoções e começar novamente. Um novo ciclo, novas oportunidades, fazer as coisas do jeito certo...

 O rapaz achava aquilo uma grande hipocrisia, vindo dela. Permaneceu em silêncio, observando ora as ruas vazias e suas névoas, que se moviam traiçoeiramente como dedos à espreita, ora o céu e suas nuvens, que se moviam mais pesada e vagarosamente, como deuses alheios a pessoas insignificantes discutindo seus problemas pessoais em cima de um edifício.

- A vastidão do céu noturno não guarda mágoas. – observou a garota, como se tivesse acabado de ler essa metáfora. – E se você parar pra pensar, todos esses problemas são realmente insignificantes. Acho que o que importa, afinal, é o bem-estar das pessoas. Coisas pequenas e humanas como um abraço, um sorriso. É igualmente irrelevante perante a infinidade do universo, mas pelo menos faz diferença no coração das pessoas. Faria diferença nos nossos corações.

- Você é uma hipócrita de merda. – finalmente respondeu o rapaz.

- Sabe, eu estou tentando ser compreensiva, mas você está começando a me machucar. – disse a garota, levando a mão ao seu peito e se aproximando mais um passo. – Eu sei que você deve estar sentindo muita raiva, mas não deveria descontar isso em mim. Eu te amo.

- Você matou meus pais e irmãs. – observou o rapaz. Esse era um ponto muito importante em seu julgamento e nessa história como um todo, e eu deveria ter mencionado isso antes.

- Foi um acidente de percurso. Eles não deveriam estar lá, e você deveria estar lá. – justificou.

- Então você tentou me matar.

- Sabe como é, são ordens.

- Eu sei. – finalmente virou-se, olhando a assassina à sua frente. Tão jovem, e tão bela. Mas também sabia que ela estava além da razão: Essa vida que levavam havia danificado-a profundamente, e desde que se conheceram, ela sempre esteve à beira da loucura. Nenhuma lógica faria sentido para ela, mas não duvidava que seus sentimentos fossem reais. Os dele também eram. Levou suas mãos até o bolso.

- O quê você está pensando? – indagou a garota, ao perder-se em seu olhar.

 “O quão facilmente o amor pode se transformar em ódio”, pensou. Apenas uma fagulha, e tudo que uma vez sentiu virou-se ao avesso, assim como toda a sua vida. A fagulha que aquela garota havia jogado sobre o combustível espalhado naquele galpão, carbonizando seus pais e suas duas irmãs mais novas. Em vez disso, perguntou:

- Por que você está aqui?

- Pra te desejar um feliz ano-novo. – respondeu a garota, que começava a lacrimejar. – Pra conseguir seu perdão, e assistir os fogos com você ao meu lado. Eu te amo. Amo, amo, amo.

- Eu te amava. Você tentou me matar, mas ao invés disso matou a minha família. E agora vem me desejar um “feliz ano-novo”? – respondeu num surto de insanidade, achando que ela pudesse entender a gritante falta de lógica em suas ações.

- Sim.

 Tirou a mão do bolso, puxando um revólver, e atirou bem no meio daquele belo par de olhos lacrimejantes com que ela o encarava.

- Feliz ano-novo, sua vadia louca. – foi tudo o que disse em seguida. Talvez fosse mesmo ser um bom ano, afinal, agora ela estava morta. Pensou na forma como as coisas se desenrolaram naquela noite, e não conseguiu evitar um esboço de sorriso em seu rosto, afinal, ele pretendia ter se suicidado. Mesmo depois que ela apareceu, ainda pretendia ter feito isso, bem na frente dela, mas não pôde conter sua raiva quando ela respondeu “sim”. Uma resposta tão pequena, tão simples... E tão errada. Ela podia ter respondido qualquer coisa, menos “sim”, e quem estaria morto agora seria ele. “Às vezes acontecem coisas que não gostaríamos.”

- Sim. – “e às vezes essas coisas são bem melhores, pois nem sempre sabemos o que gostaríamos, e eu acabei gostando bem mais de te matar”, pensou, satisfeito.

~x~

Essa foi a minha tentativa de escrever alguma coisa para encerrar o ano aqui no meu blog, espero que tenham gostado! Boas festas e um ótimo 2013 para - quase - todos! o/

2 comentários:

Marcelo »Quejinho disse...

feliz ano novo fdp mais 365 dias para todos nos fodermos!

Postcode: timplues 287

MikaHylian disse...

Tenso e foda. Adorei muito.