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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O Lobo

Um ano inteiro e tanto de conforto já está bom para o desacostumado, não é? A vida não está aí para ser tranquila e feliz, regada à suporte e contos de fadas, mas sim para ser atacada em qualquer oportunidade. Oportunismo é sobrevivência. 

Afinal, partiu voltar para o mau humor, raiva e violência que realmente me definem e deixam-me em êxtase. Ao ódio que me torna imune à qualquer nevasca ou intempérie. Ao vazio e desapego que são as únicas coisas capazes de dar à um guerreiro a sua verdadeira força. Ao frenesi carnal da dilaceração dos sentimentos. A única coisa que existe é a luta, arranhões de garras e presas que esvaziam o conteúdo de veias internas, espalhando o vermelho libertador. Enquanto as mentiras sociais nos cercam na vida sistemática, fragilizando-nos e tornando-nos incompetentes viciados na ausência de significados, a dor e a morte provam-se sempre muito reais. A única verdade que aflora dos instintos de um predador adormecido é a matança, lírica ou real. O extermínio de suas emoções e dos outros.

Quando um torna-se tão ruim quanto o mundo é capaz de ser, este transcende as preocupações e desvantagens dos mortais. Afinal, quem pode culpar o sobrevivente egoísta, em sua ilha de pedra farpada e gelo, enquanto milhares se afogam em um mar de ilusões e mentiras bem contadas? Ele é o esperto. Ele é o mais forte.

Ele é a própria morte, e morre todo dia, sem temer.
Ele mata a si mesmo, e por isso continua vivo.
Ele é o lobo, negro e mortal.

E assim como todos, o lobo também morre um dia. Mas mesmo moribundo nunca ousarão cruzar o seu caminho, ou ele viverá mais um pouco às custas de suas tripas.

Aliás, quanto mais próximo da morte, mais perigoso o lobo se torna, pois ele não tem nada a perder, e apenas a própria vida cruel à ganhar. Até matar novamente, ou morrer tentando.




5 comentários:

Elis disse...

Mas fica a (impertinente) pergunta: nada de bom foi aprendido nesse tempo de conforto? A vida pode ser uma ~montanha-russa~ de sentimentos e oportunidades, mas uma montanha-russa que muda de lugar enquanto roda (ok, minha pior analogia para a evolução do ser).

Enfim. Elis sendo Elis.

Bruno Antonelli disse...

Sempre é aprendido, em toneladas. Mas nada importa também, quando se leva pra fora. E principalmente se aprende na certeza da incredulidade nas pessoas. Tem nem como engolir nada vindo de ninguém, e muito menos dar algum crédito.

Enfim, continue Elisando.

Marcelo »Quejinho disse...

Porra, eu pensei que ia ser aquela história chata do lobo bom e lobo mau!
Aí sim, uma história de lobo original pra variar.

Bruno Antonelli disse...

O lobo bom morre de fome. Não importa qual você alimentar, o lobo mau e competente tirará a comida da boca dele.

Tawani Cavalcanti disse...

Profundo :)