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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Os Tranca-Rua

Salve salve espíritos e espectros leitores deste blog! Dois anos inteiros desde o meu último post, me deu vontade de subir um texto aqui, apesar do estado de completo abandono deste estabelecimento. Meio que é uma fanfic da campanha de Gloomhaven onde jogamos eu e a Marina.

Para quem não sabe, Gloomhaven é um jogo de tabuleiro (também disponível para PC) onde os jogadores montam um time de 2 a 4 mercenários e se aventuram em masmorras e outras missões em busca de fama e fortuna. Basicamente, para quem entende das nomenclaturas, é um boardgame dungeon-crawler de campanha legacy e combate estratégico por turnos, com cards e deckbuilding, simulando no tabuleiro o que seria considerado uma aventura de RPG estilo West Marches. É sensacional, então fica a dica pra quem gosta de qualquer uma dessas coisas! 

Enfim, no jogo tem um número de mercenários (classes) únicos. Você escolhe entre meia dúzia de classes iniciais e, quando cria um mercenário, também escolhe um “objetivo de vida”, que será a motivação para aquele mercenário estar se aventurando na cidade de Gloomhaven. Quando cumprir esse objetivo, aquele personagem se aposentará da vida de mercenário, e como prêmio você desbloqueia uma nova classe de mercenário que poderá ser contratada pelo grupo. É legal porque, se você estiver imaginando uma historinha ou interpretando um pouco dos personagens (algo completamente desnecessário para o jogo em si), esses objetivos meio que tornam cada personagem único. Mesmo que algum dia você acabe repetindo a mesma escolha de classe, aquele mercenário terá um objetivo diferente, e com isso, uma personalidade diferente, que poderá ser refletida na build que você seguirá em suas cartas.

Classes de mercenários iniciais.

Ah sim, e antes mesmo de contratar seu primeiro mercenário, os jogadores dão um nome para o grupo, que os acompanhará para sempre. É como se vocês criassem uma organização de aventureiros empreitadores, e os mercenários participantes vão rodando conforme alguns se aposentam e novos entram em seus lugares. É sempre uma despedida difícil quando o personagem com o qual você jogou por tanto tempo deixa o grupo, mas também é muito entusiasmante habilitar e descobrir um personagem completamente novo, com cartas e mecânicas novas!

Bem, tive que falar tudo isso apenas para dar um contexto para que qualquer fantasma leigo que estiver lendo esse post possa entender. Aqui vai a historinha que montei na minha cabeça em volta da campanha que eu e a Marina estamos jogando desde 2022, sobre o grupo de mercenários conhecido como “OS TRANCA-RUA”!

*Alerta de SPOILERS sobre a trama da linha de quests iniciais de Gloomhaven, porém neste texto não sairemos dos personagens iniciais disponíveis no começo da campanha*

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Introdução


Karl, o Bruto (controlado por K-2)

Karl vem de uma raça de gigantes com chifres chamada “inox”. Normalmente bárbaros que levam vidas nômades e selvagens, o Bruto acostumou-se parcialmente com a vida nas cidades, aproveitando de sua aptidão física para a violenta vida de mercenário, portando espada e escudo.



O Bruto é a classe de menor dificuldade no jogo. Ele faz praticamente três coisas, mas as faz muito bem: Andar, bater e aguentar porrada. Com esta última talvez sendo seu ponto mais forte.

Como objetivo de vida, Karl segue o chamado de uma misteriosa entidade chamada “Xorn” (não confundir com a criatura Xorn de D&D). Ele não sabe o porquê, mas sente-se atraído e guiado pela vontade de Xorn, e seu motivo para aventurar-se é explorar ruínas e masmorras em busca de respostas e também como uma forma de aproximar-se desta entidade claramente maligna.


Sandra, a Tecelã Arcana (controlada pela Marina)

Sandra é uma “orquídea” maga, uma raça de aparência cristalizada oriunda do outro lado do Mar Nebuloso. Ela é capaz de usar suas magias para manipular os elementos e realizar poderosos ataques à distância.



A Tecelã Arcana é potencialmente a classe inicial de maior dificuldade no jogo. Especializada em ataques a distância, a maioria de suas magias mais fortes requerem que a carta seja “queimada”, ou seja, removida do jogo até o final da missão. Além disso, ela possui menos cartas e pouquíssimo HP, deixando-a particularmente frágil caso seja focada pelos inimigos. Planejar com pelo menos um turno de antecedência, e fazer a leitura do tabuleiro para permanecer sempre numa posição segura, são fatores essenciais para jogá-la com sucesso.

Como objetivo de vida, ela deseja apenas juntar dinheiro. Uma quantidade grande o suficiente para que possa deixar Gloomhaven e nunca mais voltar. Para isso, ela toparia qualquer trabalho que pague bem o bastante.


Capítulo 1: Um Encontro Fadado 


Karl e Sandra conheceram-se por acaso, na pousada do Leão Adormecido, após encontrarem-se lutando juntos num beco contra alguns assaltantes ousados, ou muito desesperados. Após uma conversa regada à hidromel e vinho na mesa do bar, eles decidiram que deveriam trabalhar juntos para alcançar seus objetivos. Karl precisava de um cérebro pensante para ser o rosto e tesoureira da equipe, além de alguém para cobrir as suas costas. Sandra precisava de alguém grande e forte o suficiente para distrair seus inimigos enquanto ela conjura suas magias de uma posição segura, pouco se importando com o interesse do inox em cultos de entidades questionáveis. Desde que pudessem fazer algum dinheiro juntos, por ela tanto faz.

A guarda da cidade os havia chamado de “trancadores de rua”, uma vez que a cena com os assaltantes no beco havia sido particularmente horrenda, e tiveram que fechar a rua enquanto faziam as investigações necessárias, limpando a área do combate e tomando os depoimentos das testemunhas até determinarem Karl e Sandra como transeuntes inocentes usando de “autodefesa exageradamente letal”. Como já haviam construído certa reputação que poderia atrair patronos interessados em mercenários violentos, decidiram adotar a alcunha de “Os Tranca-Rua”.

Após deixarem seu panfleto no mural em frente da pousada procurando por trabalho, não demorou até que fossem aproximados por uma “valrath” (equivalente de Gloomhaven para a raça tiefling em D&D) que se apresentou como Jekserah. Ela os deu sua primeira missão como mercenários de aluguel: Eliminar alguns bandidos que haviam saqueado e se instalado numa cripta próxima à cidade.

Sendo seu primeiro trabalho real juntos, Karl e Sandra tiveram certa... Dificuldade. Podemos dizer que foi uma missão exaustiva. Mas conforme cumpriram o trabalho dado por Jekserah, foram amplamente recompensados, e logo em seguida ela lhes ofereceu outro, e assim seguiram, cumprindo missão atrás de missão. O pagamento era bom, e moedas nunca pareciam faltar para a contratante valrath. Durante seus trabalhos, se viram enfrentando necromantes e cultistas em números cada vez maiores, enquanto recuperavam artefatos de aparência sombria e duvidosa para Jekserah. Após uma missão particularmente difícil onde mal escaparam com vida, Karl e Sandra decidiram contratar novos membros para a equipe. Claro, seriam mais pessoas para dividir o pagamento, mas após receberem a descrição do próximo trabalho que teriam que fazer, sabiam que precisariam de reforços. Além disso, não estavam mais fazendo trabalhos somente para a mulher valrath; conforme sua reputação aumentava, novos contratantes apareciam com trabalhos mais perigosos e recompensas ainda maiores.

Assim, dois novos mercenários entraram para o grupo:


Camille, a Malandra (controlada pela Marina)

Camille é uma humana ladina, e pouco mais precisa ser dito sobre isso. Se precisam de alguém furtiva, rápida e mortal, ela é a pessoa certa para o trabalho.



A Malandra é uma classe corpo a corpo de HP relativamente baixo, porém com imensa mobilidade e potencial de dano absurdo contra alvos únicos em posições específicas. Além disso, ela é particularmente boa em saquear o dinheiro deixado para trás pelos inimigos derrotados.


Porém, como objetivo de vida, Camille deseja apenas matar o maior número de cultistas e necromantes possível. Isso muda completamente o estereótipo da personagem, que possui um objetivo de vida relativamente “bondoso”, onde ela realmente almeja tornar Gloomhaven e seus arredores numa região mais segura e livre destas figuras encapuzadas. Talvez esse desejo seja oriundo de algum episódio macabro envolvendo cultistas em seu passado? Difícil saber, uma vez que ela não fala sobre o assunto.


Jhaerys, o Coração de Pedra (controlado por K-2)

Jhaerys é de uma raça de criaturas elementais chamada “savvas”, que possuem corpos de pedra e maestria em manipular os elementos da natureza. Porém, normalmente os savvas possuem um coração brilhante em seus corpos de pedra, iluminado com a energia do elemento com o qual apresentaram maestria em seu rito de passagem para a maioridade. Um “coração de pedra”, como ele é chamado, é um savvas que falhou em seu rito, e não possui nenhum elemento brilhando em seu peito rochoso. Por isso, Jhaerys foi expulso de sua tribo como um pária, e viu-se obrigado a buscar uma vida nova em Gloomhaven em meio aos humanos e demais raças.



O Coração de Pedra é uma classe multifuncional: Tanque, suporte, dano corpo-a-corpo ou a distância, ele possui boas opções para tudo. Porém, não pode realmente destacar-se em nenhuma dessas áreas por muito tempo, uma vez que suas melhores cartas são “queimadas” e só podem ser utilizadas uma vez por missão.

Como objetivo de vida, Jhaerys decidiu que, já que ele não pôde cumprir seu papel em sua tribo, sua vocação seria ajudar outras pessoas a encontrarem seus destinos. Completamente altruísta, desde que possa ajudar outras pessoas a cumprirem seus objetivos de vida, ele não estará desperdiçando a sua existência.


Capítulo 2: A Família Cresce


Atraída ao grupo pela sua reputação em invadir masmorras e ruínas para amassarem crânios de esqueletos reanimados e dividirem cultistas ao meio, os objetivos de Camille casaram-se perfeitamente com a agenda d’Os Tranca-Rua. Claro, Sandra teve que manter em segredo as motivações de Karl em se aproximar de uma entidade adorada por cultistas, ou Camille jamais aceitaria trabalhar com ele. Já Jhaerys era mais simples de se lidar: Ele estava apenas feliz em ajudar esse grupo de pessoas a alcançarem seus objetivos. Quem sabe, assim ele pudesse encontrar seu próprio caminho.

E assim concretizou-se a primeira formação oficial da equipe: Karl como a linha de frente que avança sem pensar contra os inimigos, ignorando flechas e arranhões, enquanto Camille, aproveitando-se da distração causada pelo gigante inox, flanqueia os adversários e passa a faca em suas gargantas. Sandra mantém sua posição como tesoureira do grupo e artilharia de linha de fundo, ficando para trás e conjurando suas magias arcanas. Já Jhaerys, de início, teve dificuldades para encontrar seu papel na equipe, assim como foi com sua tribo. 

O savvas coração de pedra desejava ajudar à todos, mas ele não sabia se deveria fazer isso ficando para trás para proteger a maga de quaisquer inimigos que escapassem da linha de frente, enquanto ele mesmo ainda poderia arremessar pedras de longe; ou se tomava uma posição ao lado de Karl, servindo como um segundo tank e mantendo o bruto e a malandra dentro de seu alcance para que pudesse curá-los quando necessário. O medo de repetir seu fracasso também em exílio parecia apenas aumentar o buraco em seu peito. Mas, após algumas missões, acabou naturalmente transicionando para o segundo, avançando contra os inimigos e tentando acompanhar o ritmo frenético de Karl em batalha, porém em vão. Ele ainda não era capaz de receber ou causar tanto dano quanto seu companheiro inox, mas ele parecia grato pelo reforço.

Após algumas missões juntos e conforme acostumaram-se uns com os outros, ficou claro que as estrelas do time eram Karl e Camille. Karl conseguia segurar múltiplos inimigos enquanto era atacado por todos os lados, derrubando um a um, enquanto Camille tornava-se mais e mais confiante para entrar no meio da ação e eliminar mesmo o adversário mais intimidador. À esta altura, Sandra e Jhaerys eram apenas suportes na matança causada pelos outros dois companheiros, que dividiam suas histórias de combate e saqueio de baús e riquezas à fogueira em meio a risadas. E observando a amizade crescente do duo, Sandra não conseguia evitar de sentir-se culpada por esconder de Camille os verdadeiros objetivos de Karl. Mas ela não poderia arriscar revelar tudo e estragar a sinergia de uma equipe tão bem sucedida... Não se ela quisesse juntar dinheiro o suficiente para sair de Gloomhaven e começar uma vida nova longe de todos esses problemas interpessoais e dos perigos da vida de mercenária.

Sandra apenas deixou-os comemorarem o sucesso da última missão em paz, afinal, o que os olhos não veem, o coração não sente. Além disso, precisaria do time unido para o próximo trabalho. Jekserah, a contratante regular da equipe, havia lhe entregado os papeis para um trabalho maior que todos os outros que já fizeram. Pela manhã, apresentaria a proposta para os demais. Se obtivessem esse pagamento, ela estaria um passo mais perto de deixar esse lugar, e essas pessoas, para trás... Mas será que é isso mesmo que ela queria, ou talvez estivesse começando a sentir-se conectada aqui?


Continua...?


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É isso, apenas uma historinha que passou pela minha cabeça enquanto jogávamos. Me digam o que acharam e se gostariam de ver a parte 2. 

Gloomhaven tornou-se uma parte relativamente grande do meu foco de atenção nos últimos 3 anos. Apesar de não ter gostado no começo devido a curva de aprendizado e a parede de dificuldade no começo (por ser um jogo legacy, você nunca estará tão fraco quanto com seus primeiros mercenários em sua primeira missão), atualmente eu e a Marina praticamente terminamos a campanha virtual na Steam, e fizemos 3/4 da campanha física de Presas de Leão, um outro jogo de tabuleiro que é praticamente um spin-off de Gloomhaven, mais curto e "simplificado".

Anyway, eu fico por aqui. Talvez poste mais uma ou outra coisa antes do ano acabar... 

Mas caso não poste, Boas Festas e um ótimo final de ano! o/