"And now for something completely different..."

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Grafite

Grafite


Estou apenas repetindo a minha rotina. Acordei às seis da manhã, tomei meu café – as torradas ficaram torradas demais -, vesti as minhas roupas sociais de sempre e, como sempre, estava no ponto de ônibus cinco minutos adiantado. É sempre bom ser precavido, mas dessa vez o ônibus passou cinco minutos atrasado, e isso fez com que a minha conversa com meu vizinho durante a espera saísse da rotina – normalmente ele chega no exato momento em que o assunto está prestes a acabar – e acabei passando por uns bons cinco minutos de silêncio desconfortável.

Uma vez dentro do ônibus, sentei no meu lugar de sempre – meu ponto é o primeiro em seu caminho – e coloquei meus fones de ouvido. Meia hora depois ainda estava na metade do caminho, mas o ônibus já estava mais lotado do que provavelmente a lei permitiria. As vozes dos passageiros, o som da catraca girando indicando mais pessoas subindo para se espremerem, o barulho do motor do ônibus e o passar dos outros carros misturavam-se, tornando-se apenas um perturbado ruído de fundo que se tornava mais perceptível durante as pausas da música no meu celular. Subindo uma ladeira de casas antigas de muros baixos, o ônibus faz essa curva e é sempre pego por este semáforo, parando ao lado de um alto muro de um terreno baldio entre as velhas propriedades. E como sempre, lá estava ela.

“Ela” é a imagem no muro, virtualmente eternizada em tinta. Uma garota, de aspecto jovem, admiravelmente desenhada da cabeça até a cintura, aonde encontra o chão da calçada. Ela está nua, com as mãos cruzando-se e cobrindo ambos os seus seios. Caucasiana de longos cabelos castanhos em mechas esvoaçadas, suas cores são suaves e macias, ou assim tornaram-se com as chuvas e o tempo. Mas o que realmente prende minha atenção e me comove é a sua expressão; passa um sentimento maior do que a tristeza, algo que mistura desistência e conformação. Ela é um grafite de protesto, uma expressão de seu artista contra a violência e abuso infantil. Sempre que encaro essa imagem começo a ser tomado por um sentimento misterioso parecido com a nostalgia, e como sempre quando sinto que estou começando a entender o que é, o farol abre e o ônibus volta a se mover, deixando sua melancolia e olhares para trás.

Entretanto começo a pensar que somos parecidos, eu e a garota desenhada. Vivo neste dia-a-dia vazio, para sempre repetido, sem nunca realizar algo que eu sinta ser realmente importante ou significativo, e não tenho a quem pedir socorro. Mas mesmo se pudesse, não sei se mudaria alguma coisa. Estou eternizado nessa imagem, desistente e conformado, e assim para sempre continuarei, até o mundo parar de girar. Ou até o muro cair.

~


Apenas mais um desses textos escritos na faculdade... Mas eu realmente gostei, e acho que nunca ouvi tantos adjetivos e elogios quanto os que a minha professora de Comunicação e Expressão (aka Redação para designers) fez sobre ele... Até me perguntou o que diabos eu estava fazendo fora de um curso de Letras, hehe. Mas acho que tô no lugar certo sim, digo, uma vez que já estou em SP mesmo... Para quem leu, espero que tenha gostado!

Deixem comentários, e até a próxima~ :D

8 comentários:

Hideo disse...

Muito bom cara. Porque não está em Letras, brinks, qual o curso que cê ta fazendo?

Bruno Antonelli disse...

Thanks Max!

Tô fazendo Design Digital.

Marcelo »Qejinho disse...

"Entretanto começo a pensar que somos parecidos, eu e a garota desenhada": ambos sem calças

code: expodiff

Tsu disse...

Gostei muito da sua reflexão..fiquei a imaginar como é essa imagem...talvez deveras inspiradora e intrigante. Teria como vc tirar uma foto e me mostrar?
Poxa, deixa comment no meu blog porque assim não corro o risco de perder seus posts!
bjs

Bruno Antonelli disse...

Glad you liked! :D
Da próxima vez tentarei me lembrar, mas não faz mal se atrasar um pouquinho pra ver meus posts, rs. :3

Mas temo que a imagem seja fictícia pois a personagem e narrador não sou eu, é o eu-lírico, eu nunca acordo 6 da manhã ou tenho rotina. xD
Bolei a personagem e inventei o grafite. ^^

Ariel - de Scribentem disse...

Se sente vazio, neh, bro? É foda. Mano, tudo se torna sem sentido na vida de uma sociedade moderna capitalista. Pelo menos eu acho. Rotina. Ás vezes uma bênção, outras uma maldição. É um dos motivos pelos quais estou sempre procurando algum jogo novo, ou coisas assim, pois a vida e as conquistas em histórias fictícias são muito mais interessantes para mim. Mas eu acho que cara, é o seguinte: eu estou atrás de uma carreira fodida. Diplomata. Minha vida não vai ser ficar enfiado em um escritório o dia inteiro, pra depois ir pra casa, e voltar ao escritório e assim sucessivamente. Por isso quero ir para outros países. Quero ver coisas novas, e blá blá blá. Sem falar que é uma coisa pela qual eu acho bom lutar. Simplesmente por não ser fácil. Pois assim, a rotina fica menos monótona, e as conquistas nos dão mais orgulho. E eu não sei o que isso tem a ver com a menina pintada no muro. haha.
"Apagaram tudo,
pintaram tudo de cinza...
A palavra no muro
ficou coberta de tinta..."
Espero que não aconteça com esse desenho aí.

Bruno Antonelli disse...

Vazio? Nunca me senti assim, no máximo entediado, algumas poucas vezes deprimido, talvez pq eu nunca tenha tido nada que chegasse perto de uma rotina ou vida comum... Como eu disse a personagem e os sentimentos do texto não sou eu mesmo, foram inventados~

Ariel - Capitão Abutre disse...

Mas eu acho que muito do que fazemos (rotina, trabalho, estudo, etc...) é vazio. Não desnecessário, mas vazio. Pois tudo isso está direcionado a um único fim: help ourselves. Ganhar dinheiro, e estar sempre atrás da satisfação pessoal, sem procurar acrescentar nada nas outras pessoas. Por isso acho que é vazio. E me sinto um pouco assim. Acho que o artista que desenhou a garota ou sente-se assim, ou está fazendo algum tipo de protesto contra esse sentimento, pois não é assim que ele quer estar. Humm, acho que se eu fosse um grafiteiro, seria por isso que eu o faria. Pra expor minha arte e minhas ideias sem ter que ganhar dinheiro, e conseguir transmitir algo de bonito ou útil ou os dois para as outras pessoas sem ganhar nada em troca.